Foto: Arquivo São Paulo FC
O São Paulo Futebol Clube foi fundado em 25 de janeiro de 1930 e hoje comemora 96 anos de existência. O clube nasceu da união da Associação Athletica das Palmeiras com dissidentes do Club Athletico Paulistano, tendo sua ata de fundação assinada na madrugada do dia 26 daquele mês devido ao tardar da reunião e à confecção dos estatutos.
Como o estatuto do Tricolor diz, no capítulo I, artigo 1º: “O São Paulo Futebol Clube (‘SPFC’), fundado na cidade de São Paulo em 25 de janeiro de 1930, tendo temporariamente suspendido e retomado suas atividades no ano de 1935, é uma associação de prática desportiva…“. Não há, então, qualquer questão sobre o dia em que O Mais Querido foi fundado.
Conheça mais sobre o processo de criação do São Paulo Futebol Clube
OS FUNDADORES
O Paulistano nasceu na Rotisserie Sportsman (Rua São Bento, nº 61), em 29 de dezembro de 1900. Pouco mais de um ano depois, em 1902, já era vice-campeão do primeiro Campeonato Paulista da história. Ao todo, o Paulistano conquistou 11 títulos paulistas, sendo quatro consecutivos (1916-1919).
Grandes nomes jogaram pelo alvirrubro paulistano: estrelas como Rubens Salles, Mário Andrada, Filó, Araken Patusca e, principalmente, Arthur Friedenreich (El Tigre e Araken defenderiam o Tricolor mais tarde).

Fundada em 9 de novembro de 1902 e sediada inicialmente na Av. Angélica, a AA Palmeiras sempre possuiu forte vínculo com o Paulistano. A afinidade entre os dois times surgiu ainda nas primeiras partidas disputadas entre si, quando o time principal das Palmeiras enfrentava o segundo quadro (time B) do Paulistano. Com o prestígio gerado por esses encontros, o time foi admitido na Liga Paulista em 1904, onde se tornaria, futuramente, tricampeão.
Também em 1904, o clube mudou-se para a Chácara da Floresta, onde construiu o famoso campo. Em 1916, o CA Paulistano doou as arquibancadas do antigo estádio Velódromo. Rapidamente a Floresta se tornou um grande polo esportivo da cidade de São Paulo.
A união dos dissidentes do CA Paulistano (o clube existe até hoje) com AA Palmeiras resultou no nascimento de um clube de ponta e de berço. Gigante. Detentor, por assim dizer, de 14 títulos paulistas – praticamente a metade do que havia sido disputado até então -, e herdeiro de grandes craques do futebol e de uma bela sede esportiva, na Floresta.

O NASCIMENTO DO TRICOLOR
O ponto crucial da história que levou à origem do São Paulo foi a desistência do Paulistano de praticar o futebol e o fim da Liga dos Amadores de Futebol (LAF), entidade basicamente capitaneada pelo clube do Jardim América e de que também fazia parte a AA Palmeiras, em 8 de janeiro de 1930.
Muitos filiados alvirrubros, descontentes com tais decisões, passaram o mês de janeiro a arregimentar outros adeptos às tradições e glórias do maior campeão paulista da era amadora, para o nascimento de uma nova associação esportiva na cidade. Dias antes da fundação, em 25 de janeiro, já era prevista, debatida e praticamente acertada a elaboração dessa nova entidade.
A movimentação pela união dos clubes começou cedo, ainda no fim de 1929, quando o Paulistano ameaçava deixar o futebol. Prova disso está no anúncio publicado pela AA Palmeiras em vários jornais da capital no dia 10 de janeiro de 1930, logo após o fim da LAF, com a intenção de reformar o gramado da Chácara da Floresta. O clube não dispunha, sozinho, de recursos para tal empreendimento: essa obra já estava nos planos dos dirigentes que fundariam o Tricolor.
Uma das primeiras passagens na imprensa acerca da criação do novo clube ocorreu no jornal Folha da Manhã, na coluna “Pão de Moloch“, no dia 21 de janeiro. Nela, foi dito que o nome da nova equipe seria Esporte Clube Paulistano. Já o impresso Diário Nacional, de 23 de janeiro, apostava em Paulistano Atlético Clube, indicando, também, que os grandes craques do antigo clube, como Friedenreich, atuariam no futuro time, o que de fato aconteceria.
Este mesmo jornal noticiou, no dia 24 de janeiro, como fundado o São Paulo Futebol Clube. Foi o primeiro órgão a fazê-lo, curiosamente, antes de ter sido verdadeiramente fundado. Acontece que em 22 de janeiro, quarta-feira, ocorreu a reunião prévia entre os desportistas de ambos os clubes citados.
Nessa assembleia preliminar ficou decidido o nome do clube – assim escolhido pelo ideal de representar a cidade e o estado, como também por causa da proximidade do aniversário da cidade de São Paulo -, o corpo diretor e os integrantes do Conselho Deliberativo. Mas os estatutos e acertos finais ficaram para o sábado, 25, propositalmente no citado aniversário.

Em tal encontro, aliás, também tomaram parte sócios da Associação Athlética São Bento, tradicional clube da cidade (bicampeão paulista). Contudo, posteriormente, esses membros não aceitaram fazer parte do acordo de fundação porque o associado de mais renome daquela entidade, Lauro Gomes, fora substituído por Luiz Oliveira de Barros no posto de secretário geral da nova agremiação.
Não fosse pelo motivo acima citado, possivelmente não haveria Tricolor, pois o clube teria mais uma cor em seus símbolos, sendo representado, assim, por vermelho, branco, preto e… azul celeste.
Outro ponto importante decidido foi a convocação do Conselho Consultivo da AA Palmeiras para as 17h daquele mesmo sábado. Lá, aprovariam a união daquele clube com os dissidentes do Paulistano e, por assim dizer, o “rebatismo” da associação – Como o jornal Folha da Noite, na coluna “Notas e Notinhas“, anunciou no dia 31 de janeiro, para a APEA, a federação organizadora do futebol no Estado de São Paulo, o São Paulo Futebol Clube nada mais era que a Associação Athlética das Palmeiras sob nova nomenclatura, ocupando o mesmo registro.
O “Relatório da Directoria da Associação Paulista de Esportes Athleticos Relativo ao Anno de 1930“, único documento oficial que existe sobre esse ponto, deixa isso claro, quando, na página 31 do livro, no capítulo “Clubes que mudaram de nome”, em seu item terceiro, diz: “Associação Athletica Palmeiras, que ficou sendo o São Paulo Futebol Clube”.
(Contudo, o Tricolor não pode ser considerado a continuação direta da AA Palmeiras justamente porque sócios do clube alvinegro, descontentes com a fusão, reabriram o clube, que chegou até mesmo a disputar o Campeonato Paulista Amador da FPFA, do mesmo modo que associados e simpatizantes do São Paulo reativaram o clube em 1935.)

Assim, às 14 horas do dia 25 de janeiro, na Praça da República, nº 28 (em propriedade quase na esquina da Avenida São Luís com a Avenida Ipiranga e que, dois anos depois, veria eclodir ali, na praça, a Revolução Constitucionalista de 1932), começou a assembleia de fundação que, como se sabe, tardou a ser finalizada devido à produção do estatuto do clube e pelo andar da reunião do Conselho Consultivo da AA Palmeiras, realizada na Chácara da Floresta.
Já na madrugada, com tudo aprovado, foi lavrada a ata de fundação do São Paulo Futebol Clube, abaixo transcrita na linguagem da época:
Aos vinte e seis dias do mês de janeiro de mil novecentos e trinta, nesta cidade, à Praça da República nº 28, compareceram os abaixo-assignados, sócios da Associação Athletica das Palmeiras e do Clube Athletico Paulistano, para o fim especial de fundarem um novo clube que representasse condignamente a Cidade de São Paulo em competições esportivas.
A convite dos presentes, assumiu a presidência da assembléia o Sr. João Oliveira de Barros, que convidou para secretário o Sr. Luis F. Amaral. Em seguida, passou-se a leitura dos estatutos, que vão adiante transcriptos e que, depois de discutidos, foram unanimemente aprovados. Procedeu-se à eleição da primeira directoria, que, por proposta do Sr. Firmiano de Moraes Pinto Filho, foi acclamada com os seguintes nomes:
- Presidente: Dr. Edgard de Souza
- 1º Vice-Presidente: Dr. Alberto Hugo de Oliveira Caldas
- 2º Vice-Presidente: Dr. Gastão Rachou
- 3º Vice-Presidente: Dr. Benedicto Montenegro
- 1º Secretário: Dr. Luís Oliveira de Barros
- 2º Secretário: Dr. José Martins Costa
- 1º Thesoureiro: Dr. João B. da Cunha Bueno
- 2º Thesoureiro: Dr. Caio Luís Pereira de Souza
Conselho Fiscal:
- Dr. Samuel Toledo Filho
- Dr. Névio Nogueira Barbosa
- Dr. Raphael Salles Sampaio
Suplentes:
- Dr. Gabriel de Rezende Filho
- Dr. Caio da Silva Ramos
- Dr. Plínio da Silva Prado
Por proposta do Sr. Clodoaldo Caldeira, foram, em seguida, acclamados para presidente e membros do Conselho Deliberativo os seguintes nomes:
- Presidente: Dr. Júlio de Mesquita Filho
Membros:
- Dr. Névio Nogueira Barbosa
- Dr. Gastão Rachou
- Dr. Alberto Hugo de Oliveira Caldas
- Dr. Augusto de Castro Leite
- Dr. Luiz Augusto Pereira de Queiroz
- Dr. Marcello Paes de Barros
- Dr. Luiz Marcondes de Moura
- Dr. Leonel Benevides de Rezende
- Dr. Ariosto Ferraz
- Dr. Sergio Meira
- Dr. Rubens de Moraes Salles
- Dr. Arnaldo Alves da Motta
- Dr. Manoel Carlos Aranha
- Dr. Mário da Cunha Bueno
- Dr. Luiz Fernando do Amaral
- Dr. Firmiano de Moraes Pinto Filho
- Dr. João Oliveira de Barros
O Sr. Presidente convidou a Directoria eleita a tomar posse de seus respectivos cargos.
Assumindo a presidência, o Sr. Dr. Edgard de Souza agradeceu em seu nome e no de seus companheiros de Directoria, a prova de confiança promettendo tudo fazer pelo engrandecimento da nova entidade esportiva.
Nada mais havendo a tratar, pelo Sr. Presidente foi encerrada a sessão, da qual eu, secretário, lavrei a presente acta, que vae assignada pelo Sr. Presidente, por mim, e demais presentes.
- Edgard de Souza
- Alberto Hugo de Oliveira Caldas
- Gastão Rachou
- Benedicto Montenegro
- José Martins Costa
- João B. da Cunha Bueno
- Caio Luís Pereira de Souza
- Samuel Toledo Filho
- João Oliveira de Barros
- Paulo Novaes de Barros
- Clodoaldo Caldeira
- Luiz Fernando do Amaral
- Joaquim da Cunha Bueno Netto
- Leonel Benevides Rezende
- Augusto Portugal dos Santos
- Duffles de Camargo Bueno
- Paulo Machado de Carvalho
- Arnaldo Alves da Motta
- Névio Nogueira Barbosa
- Augusto de Castro Leite
- Mário da Cunha Bueno
- Alcino Vieira de Carvalho
- Luiz Marcondes de Moura
- Marcello Paes de Barros

1930 E 1935: ENTENDA A DIFERENÇA ENTRE AS DATAS
O são-paulino mais jovem já deve ter se perguntado isso: “Mas quando é o aniversário do meu clube, mesmo?” A dúvida é pertinente. O São Paulo Futebol Clube foi fundado em 25 de janeiro de 1930 e reorganizado, após desavenças políticas que haviam levado o clube a um breve encerramento, em 16 de dezembro de 1935.
O tema, dentro do próprio São Paulo, sempre foi ponto de forte discussão. Ao longo dos anos e com o passar das mudanças estatutárias, é possível verificar isso. Aqui, transcreveremos os artigos de cada mudança estatutária referente, deixando claro que as duas datas são de suma importância para o Tricolor e que o clube não pode abrir mão de nenhuma delas, pontuando-as como devem ser: fundação e reorganização.
Cada uma tem seu significado e valor histórico, resultado da ação de vários homens que batalharam em prol do time por que você torce hoje.
E este time é um só: o São Paulo Futebol Clube, que é o mesmo desde 1930. Nunca existiu um “São Paulo da Floresta” ou um “SPFCF”. Tal alcunha é de uso tardio, que surgiu em meados dos anos 1970 e que se espalhou nos anos 1990. O nome, o escudo, os uniformes e todos os símbolos são marcas indivisíveis do único São Paulo Futebol Clube.
“Aos vinte e seis dias do mês de Janeiro de mil novecentos e trinta, nesta cidade, à Praça da República nº 28, compareceram os abaixo-assignados, sócios da Associação Athletica das Palmeiras e do Clube Athletico Paulistano, para o fim especial de fundarem um novo clube que representasse condignamente a Cidade de São Paulo em competições esportivas”.
Lembrando que é dito 26 de janeiro pois a reunião de fundação adentrou pela madrugada, tendo se iniciado no dia 25, às 14h.
No segundo semestre de 2013, o Egrégio Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube aprovou solene e claramente a data de 25 de janeiro de 1930 como a da fundação do Tricolor e 16 de dezembro de 1935, que jamais será esquecida, como a data da reorganização do São Paulo Futebol Clube.

Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah